Quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Alexandre Garcia

Alexandre Garcia

ESCÂNDALOS SINCEROS

Segunda-feira, 25 de julho de 2011

O ex-presidente da República e presidente do Senado José Sarney diz que a crise no Ministério dos Transportes já é caso superado. Deve ser porque temos que dar espaço para os escândalos seguintes, cada vez mais freqüentes. Tenho quase 65 anos de vida política. Aos seis ou sete anos, já brincava com sátira das siglas partidárias daquele tempo - UDN: Unidos Derrubaremos a Nação; PSD: Para Servir o Dornelles(Getúlio Dornelles Vargas) e PTB: Pura Tapeação do Baixinho(Vargas). Criança ainda, discutia sobre o Brigadeiro, Prestes, Dutra, Plínio, Adhemar e Getúlio. Depois, o embate JK e Juarez e, na geração seguinte, já estava, com a vassourinha na lapela, em comícios do Jânio, adversário do Lott. Tempos em que havia corrupção, mas não num tamanho, numa sucessão crescente como hoje.

É preciso esquecer a crise, o escândalo de hoje, porque é necessário abrir lugar para o próximo. Aí, esquece-se o atual e amplia-se a falta de vergonha. Quem lembra, por exemplo, logo ali, do deputado que construiu um castelo em Minas? Pois agora se descobre que a Justiça Federal tenta cobrar dele 53 milhões de reais devidos à Previdência. O deputado não foi reeleito. Estava acusado de usar 230 mil reais do nosso dinheiro para contratar suas próprias empresas de segurança. Será que está encastelado? Atrás de muralhas parecem estar os mensaleiros, que não estão preocupados com os processos que correm no Supremo.

Tempos aparentemente menos inescrupulosos, já eram vergonhosos. Eu era menino e Sérgio Porto(Stanislaw Ponte Preta) já escrevia “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”, mostrando nossa hipocrisia. Os que são atores de escândalos, em geral são nomeados pelo nosso voto. E, pior, eles fazem os males durante o mandato e depois os reelegemos. Ou somos burros, alienados ou cúmplices. Talvez, em tempos de hoje, muitos entre nós  tenham decidido lucupletarem-se também.

Afinal, acaba de ser lançado no Brasil o livro de um jornalista alemão, intitulado Sincero. Ele conta o que aconteceu quando passou 40 dias sem mentir. Por exemplo, a um cumprimento Tudo bem?, ele respondia: Não, estou com dor-de-cabeça ou Hoje estou com dificuldade de pagar uma conta. Era sincero sempre, deixando de lado a hipocrisia. Em resposta, foi insultado, agredido, quase perdeu a mulher. O livro mostra como nossas relações se baseiam na falsidade, na enganação. Imaginem boa parte dos políticos impedidos, por alguma bendita maldição, de mentir.


MUDANDO PARA PIOR

Sexta-feira, 15 de julho de 2011

Está no espaço pela última vez a nave Atlantis. Encerra uma série de 135 missões com naves da NASA. A nação mais poderosa da Terra reconhece que não pode pagar tão caro por missões com naves próprias e vai usar as russas Soyuz e particulares. Enquanto isso, aqui no Brasil, integrantes da Infraero se mobilizam para impedir a privatização parcial de aeroportos brasileiros.

A Infraero tem dezenas de obras paralisadas por superfaturamento e outras irregularidades pelo Tribunal de Contas da União. Falta o dinheiro que sai pelo ralo, há aeroportos perigosíssimos para aviões com mais de 100 passageiros, como Congonhas e Santos Dumont, as taxas de embarque são o dobro de Nova Iorque e os terminais não dão conta da demanda. Mas não querem privatização. Não querem perder a boquinha e os passageiros, que os sustentam, que se danem.

Enquanto isso, o trem-bala Rio-São Paulo-Campinas patina na VALEC. Na semana passada, a China - que há 40 anos perdia feio para o Brasil em tudo - inaugurou a linha de trem-bala mais extensa do mundo, entre Pequim e Xangai. Cerca de três vezes a extensão do projetado brasileiro: 1.318 quilômetros. Que são percorridos em 4 horas e 48 minutos, a mais de 300km/h, levando 1.050 passageiros em três classes. A China também recém inaugurou uma ponte marítima de 42 km, ao custo equivalente a 57 milhões de reais o quilômetro. Aqui, o DNIT promete duplicar a ponte do Guaíba, em Porto Alegre, a 400 milhões o km... Nos últimos anos, calou-se a boca daqueles que, aqui no Brasil, alegavam que aqui tudo é difícil porque tem gente demais. A China tem sete vezes mais população. Ocorre que lá investem em educação. Aqui, educação é considerada perigo, porque o conhecimento liberta da demagogia e assusta os corruptos.

Nas estradas, o perigo vai além da estrada malfeita e superfaturada. É o indivíduo que não deveria estar atrás do volante. Falta-lhe senso de cidadania e civilidade para dirigir. Só nos últimos dias o senador Aécio Neves; o vice de Serra, deputado Índio da Costa; um delegado de polícia de Minas Gerais, o deputado e ex-jogador de futebol Romário, se recusaram a soprar no bafômetro. São pessoas públicas e servidoras do público. Mas escondem-se atrás da alegação de que não são obrigadas a produzir prova contra si. E assim confessam que dirigiam alcoolizadas. E nenhum tribunal superior deste país declara que esse princípio não vale quando estiver em jogo a vida alheia.

Para terminar bem, uma boa notícia. Valeu a mobilização em Jaraguá do Sul(SC). Os vereadores não aumentaram seu plantel. Inverteram a primeira votação e se mantiveram em 11 não subindo para 19. Afinal, quem aprendeu aritmética sabe que 1/11 vale mais que 1/19. Quando a população descobrir que é mandante dos mandatários, mudaremos para melhor. Ou não melhoramos nem nós mesmos?


MAIS VEREADORES PARA QUE?

Quinta-feira, 7 de julho de 2011

Será verdade que o Brasil começa a reagir ao aumento no número de vereadores? Se for, será sinal de que estamos amadurecendo na cidadania. Se for apenas ativismo de uns poucos, será sinal de que continuamos alienados, atrasados e condenados a não ter futuro e estar explorados e tapeados pelos políticos desonestos.

Em Jaraguá do Sul-SC, faz-se campanha em painéis, demonstrando-se que um professor ganha 606 reais e um vereador 7.316 reais; que faltam médicos, creches e hospitais; que um operário trabalha 44 horas semanais e um vereadores 5 horas. “Não precisamos de mais vereadores” - dizem os cartazes. Em Santa Cruz do Sul e Vera Cruz-RS, entidades de classe estão envolvidas na campanha. A ex-senadora Heloísa Helena, hoje vereadora em Maceió não quer saber de aumento de 21 para 31 vereadores. Lembro-me da época em que ser vereador era cargo honroso para servir a comunidade, e não para se envolver em negociatas e ganhar dinheiro.

Será que vamos ficar indiferentes? Vereador a mais significa gabinete, cargo em comissão, cabide de emprego para cabo eleitoral. Que diferença faz ter 11 ou 17 vereadores para Santa Cruz do Sul? Faz diferença no bolso do contribuinte. Quanto à função de fiscalizar, denunciar, aprovar lei, nada há na administração municipal que 11 não possam fazer no lugar de 17. E quem argumenta que o aumento de vereadores não vai causar aumento da despesa, está convicto de que temos miolo mole.

Tampouco é obrigatório aumentar o número de vereadores. Não caiam nessa. O que a emenda constitucional 58/09 fez foi estabelecer o limite máximo de vereadores, proporcional à população. Assim, o Rio de Janeiro não pode ter mais de 51 vereadores, mas não é obrigado a tê-los. Poderia continuar com 42. No entanto prevalece a tradição da gaiola de ouro. Não beneficia o povo; só eles próprios, os edis. O que vale é o que diz a lei orgânica municipal. Não inventem que tem que ir ao limite. Mas se não nos importarmos, abrimos mão de sermos mandantes. Seremos eleitores e pagadores, nada mais. E alienados.


MAMATÁVEIS

Quarta-feira, 29 de junho de 2011

Você provavelmente não conhece o deputado federal maranhense chamado Pinto Itamaraty. É tucano e desconhecido. Ele já gastou, dos seus impostos, prezado leitor, 155 mil reais em telefone, combustíveis e correio. Em quem eu votei, PDT/DF, José Antônio Reguffe, gastou 4 mil. Dos 513 deputados e 81 senadores, há de tudo. O senador Renan Calheiros, está disposto a presidir de novo o Senado, sucedendo a José Sarney - o senador que é líder do mais atrasado dos estados brasileiros.

Enquanto isso, cai um helicóptero na Bahia, mata sete pessoas - mulheres e crianças. Emprestado por construtora ao governador do Rio. A construtora tem 127 milhões no estado do Rio, sem licitação, segundo o TCU. O nome disso é promiscuidade. Assim são os valores dos imóveis de Antônio Palocci. Nem se sabe afinal em quanto monta. Essa segunda-feira chegamos a 700 bilhões de reais, em impostos federais, estaduais e municipais. No ano passado, chegamos a 700 bilhões dia 20 de julho e ano retrasado, dia 3 de setembro. Ou seja, cada vez mais impostos e temos menos educação, menos segurança, menos transporte - ou seja mais gasto e mais ineficácia do estado.

A cada semana a Polícia Federal pega prefeito, vice-prefeito, presidente de Câmara de Vereadores, vereadores, secretários municipais, primeira-dama, empresários - que metem a mão no dinheiro de todos nós. E também metem a mão nos aeroportos, estradas, estádios. Certamente roubam mais que os assaltantes de banco, de residências, de motoristas, de pedestres. Além disso, temos impostos mais caros e juros mais altos. E a gente não percebe que somos os mandantes dos nossos mandatários - ou serão mamatários?

Fico pensando por que outros países, como Chile, Uruguai ou China, Japão, ou Estados Unidos punem corruptos e nós punimos uns poucos. O pior de tudo, nós votamos neles. É uma vergonha. Enquanto nós continuarmos matando, agredindo e vociferando por causa de futebol e não por causa de política, vamos permanecer alienados.


PERDÃO, ITALIANOS

Quarta-feira, 22 de junho de 2011

Como se já não bastassem os nossos assassinos, passamos a abrigar mais um, esse Cesare Battisti, graças ao arbítrio do então Ministro da Justiça, Tarso Genro e do então Presidente Lula, no apagar das luzes(?) de seu governo. O mesmo arbítrio usado no sentido oposto, para mandar de volta à ditadura castrista dois atletas perseguidos políticos, que desertaram da delegação cubana nos jogos pan-americanos do Rio. E a Justiça brasileira nem passou por perto: os dois foram presos e embarcados num avião venezuelano.

Pois o senhor Battisti, condenado em todas as instâncias nos tribunais italianos - no país berço do Ius Romanum, de indispensável estudo das nossas faculdades de Direito. Foragido na Franca, refúgio de perseguidos políticos, foi extraditado, com sentença confirmada pelo Tribunal Europeu. Qual a saída? Fugir para o Brasil, ora bolas! Entrou aqui com passaporte falsificado, o que neste país sem princípios não lhe tira o direito de conseguir visto de permanência, por incrível que pareça.

No primeiro julgamento do caso, o Supremo decidiu que estava configurada a extradição pedida pelo governo italiano, uma vez que os crimes cometidos por ele foram comuns e não políticos, não caberia, portanto, o título de refugiado que Battisti ganhara do Ministro Tarso Genro. O Supremo, então, desconstituiu o título de refugiado e disse que se ele é cidadão de outro país, foi condenado por crimes comuns, então cabe a extradição. Só que quem decide extradição é o chefe de estado, o Presidente da República. Que negou a extradição nas últimas horas de poder, em 31 de dezembro - certamente isso significa alguma coisa.

Nada mais eloquente: o Chefe de Estado do Brasil faz uma banana para a democracia italiana, para a Justiça italiana, para o povo italiano, vítima de gente como Battisti. Lula e Genro, ao premiarem Battisti com o título de perseguido político afirmam que o regime democrático e as instituições e garantias não funcionam na Itália. A época de Mussolini acabou em 1945. Querem convencer a quem? Scusateci italiani!


DEPOIS DA FAIXA

Sexta-feira, 17 de junho de 2011

Peço desculpas aos parceiros leitores por terem minhas letras, semana passada, enquanto Palocci despencava lentamente, caminhado sobre faixa de pedestre. Acontece que fui atropelado, numa trilha do cerrado. Por um filhote de dog-alemão de 70 quilos em desabalada carreira, que me atingiu por trás e me fez voar e bater no chão com a base do crânio. Resultado: um traumatismo crânio-encefálico com hematoma, por sorte fora do cérebro. Ainda grogue, tudo que consegui escrever foi o que não precisava de muita pesquisa, antes de ir para a ressonância-magnética. Reflexos preservados, mas preocupado com o hematoma, volto ao triste assunto da política brasileira.

A presidente já devia ter na manga a escolha da substituta de Palocci, porque saiu tudo no mesmo dia, ao contrário de Lula que, quando um ministro deixava a pasta, a vaga permanecia por semanas. A senadora Gleisi Hoffmann já estava pronta para dar entrevista mal surgira o nome dela, enquanto outros nomes cogitados pelo PT, na Câmara, ficavam perplexos, como o líder Cândido Vacarezza e o ex-líder e ex-presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia. Mais do que perplexo, irritado, ficou o senador Renan Calheiros, reclamando que o PMDB não fora consultado. É o resultado de nosso regime jaboticaba - só tem no Brasil. Um presidencialismo que parece parlamentarismo. E não é uma coisa nem outra. Uma jaboticaba só pode se parecer com outra jaboticaba.

Depois veio a queda natural daquele ministro que usa um capacete peludo, Luiz Sérgio, que tinha o pomposo título de ministro das Relações Institucionais e foi mandado pescar. Como fora prefeito de Angra dos Reis, não estranhou virar ministro da Pesca e ficou muito feliz, como se tivesse sido uma pesca milagrosa. Livrou-se do apelido de garçom. Aquele que anota pedidos. E a Ministra da Pesca, que tem um temperamento de espantar peixes, virou ministra da negociação, das Relações Institucionais. Enquanto era senadora e líder, Ideli Salvatti era quase uma combatente, explosiva e com pavio curto.

Não conheço a nova ministra Gleisi. Quando foi secretária do governador Zeca do PT, em Mato Grosso do Sul, ganhou fama de trator. Fico imaginando o que podem produzir esses dois temperamentos fortes numa reunião política de apaziguamento de ânimos que hoje se estranham dentro do próprio PT ou, mais delicado ainda, numa reunião com o exigente e queixoso aliado PMDB. Dilma com certeza sabe a resultante porque, afinal, foi ela que juntou as duas. E no discurso para empossar ministros, olhou para o calendário, percebeu que estamos em meados de junhos, e mandou-os trabalhar.


FAIXA DE PEDESTRE

Quinta-feira, 9 de junho de 2011

Na maior cidade do país, começaram agora uma campanha pela faixa de pedestre, que ninguém respeita. Com frequência ouço relato de motoristas brasilienses, acostumados no respeito à faixa, que sofreram colisões na traseira de seus carros porque pararam para o paulistano passar. Em Brasília, o respeito à faixa foi resultado de uma política firme, que contou com o apoio da população. As faixas foram repintadas e vigiadas por policiais ou agentes do Detran, para multar quem não parasse para o pedestre passar. Funcionou, mesmo antes do atual código de trânsito.

O problema é que alguém resolveu inovar, sem pensar muito nas consequências. Inventou o tal sinal de vida, recomendando ao pedestre que levante o braço para sinalizar o desejo de atravessar. O erro está em que isso transferiu ao motorista a idéia de que o pedestre está pedindo licença para usar a faixa. Portanto, a faixa não é do pedestre, mas do motorista. Com isso, a conquista se esmaeceu, perdeu força. Já vi muita gente com os braços ocupados impedida de atravessar a rua: senhoras com um bebê num braço e uma bolsa no outro, gente de muletas ou carregando malas nas duas mãos. No mundo civilizado, o primeiro passo na faixa é sinal de parada para os veículos. Em Brasília, bastava estar de frente para a rua, diante de uma faixa, para os carros pararem. Agora isso já é raro.

Pois São Paulo está copiando o que deu errado em Brasília e não o que deu certo. Vai ficar na mesma. A faixa continuará do motorista, e não do pedestre. O Código Brasileiro de Trânsito estabelece que todos os veículos, motorizados ou não, são responsáveis pela vida do pedestre. É a tradução para a lei do princípio moral de que os mais fortes são responsáveis pela proteção dos mais fracos. Quem está protegido por uma armadura de aço é responsável por quem está protegido apenas pela roupa do corpo.

O pedestre também precisa fazer a sua parte. Não pode caminhar entre os carros - isso está expressamente proibido no código de trânsito. Tampouco pode atravessar pela faixa onde houver semáforo e ele estiver vermelho para a travessia. Nem pode, onde houver faixa, atravessar por outro lugar. Parecem novidades, aqui neste país ainda pré-civilizado.


IRMANDADE CARA-DE-PAU

Segunda-feira, 6 de junho de 2011

Enquanto o Brasil tem uma formidável rede fluvial, lacustre e 7 mil quilômetros de costas para o Oceano Atlântico, mas não aproveita, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários está preocupada em aperfeiçoar a formação de seu Diretor-Geral. O fato de que ele vai deixar a Agência em oito meses não faz a menor diferença. Ele vai se ausentar, com remuneração, por 24 dias para fazer um curso, que inclui duas semanas na França. Contribuintes como você vão pagar 63 mil reais pelo curso. Meu neto vai fazer um curso de vídeo e propaganda em Nova Iorque por quase dois meses e a despesa não vai passar de 15 mil.

O incrível é que nenhum agente público teria coragem de fazer isso em país minimamente sério. Qualquer um de vocês que me lê, se fizesse isso, não sairia para a rua, não dormiria, morrendo de vergonha. Parece que vergonha é o que se perdeu, com a impunidade, o conceito de que dinheiro do público é de ninguém - e a cultura de que estar dentro da lei é para trouxa. Detentor de um mandato público remunerado pelo contribuinte, Antônio Palocci fatura 20 milhões em um ano, em pleno mandato de deputado federal e na coordenação da campanha de Dilma, e não se sente obrigado a explicar quem pagou e para quê, ainda que metade disso tenha sido auferido depois da eleição presidencial.

Há a certeza de que não reagimos, de que não nos escandalizamos, de que somos imbecis e aceitamos qualquer desculpa. A mais forte explicação para o gigantesco faturamento de Palocci nos últimos meses do ano passado é a de que precisava encerrar contratos de consultoria, então eles foram quitados. Como assim? Pagaram sem receber o serviço? Se tenho contrato com a Globo até o fim deste ano e ela me paga tudo agora, não há dúvida que fico devendo o serviço. Também falta explicar, como lembrou o Elio Gaspari, para onde foi tanto dinheiro, já que apenas pouco mais de 7 milhões foram aplicados em dois imóveis. Até a vida privada do homem público tem que ser transparente, como aliás Palocci sentiu com o indiscreto caseiro da casa de encontros.

Casos assim passam, porque são um grão de terra no lamaçal. Acontecem em toda a parte do serviço público. Também acontecem na empresa privada, mas o dinheiro da empresa privada é privado e ela certamente não descansa enquanto não obtiver o reembolso. No setor público, reembolso é coisa rara. Proteção, blindagem, espírito de corpo é coisa frequente. Nos Estados Unidos, algemam; no Japão praticam o suicídio; na China, a família paga a bala da execução. Aqui, alguns milhares de eleitores trazem de volta o seu representante.


O CASEIRO E A CAMAREIRA

Quarta-feira, 25 de maio de 2011

Duas histórias parecidas revelam como dois países podem ser diferentes. No Estados Unidos, o chefão do FMI tentou estuprar a camareira do hotel, negra e recém-chegada da Guiné, e foi preso, algemado, renunciou ao cargo e pode pegar 25 anos de prisão. No Brasil, o ministro da Fazenda se envolveu no estupro do segredo bancário de um caseiro recém-chegado do Maranhão e este teve que revelar-se bastardo para mostrar que o dinheiro da conta viera do pai biológico, chefe de outra família. Aqui, inverteu-se o ônus da prova: o caseiro precisou provar a origem do dinheiro.

Hoje, o então ministro da Fazenda é o mais importante ministro do governo, chefiando a Casa Civil da Presidência da República e, como o mundo dá muitas voltas, ele que é chamado, agora, a dar explicações pela multiplicação do patrimônio. Parece que o destino preparou uma ironia para Palocci. Só no ano passado, seu quarto ano de mandato como deputado federal, ele teria faturado, através de consultoria à qual detém 99,9%, 10 milhões de reais. Lula teria que fazer uma palestra por semana, durante todas as semanas do ano, a 200 mil reais por palestra, para chegar a essa soma.

Certa vez, eu escrevia duas páginas na revista Manchete e descobrira que o presidente Figueiredo, depois do infarto, driblava o regime escondendo chocolate na lata de arroz da cozinha da residência oficial do Torto. Revelei isso na revista e ele ficou furioso. Mandou dizer que eu invadira a privacidade dele. Respondi com um bilhete, explicando que homem público não tem privacidade; tem vida pública. E que a saúde do Presidente da República é uma questão de estado, de interesse público, portanto. Ele não tinha o direito do alegar privacidade quando, em sua vida íntima, prejudicava a saúde do chefe de governo do País. Ele acabou tendo que concordar.

Antônio Palocci multiplicou o patrimônio e faturou milhões enquanto exercia, em nome do povo, o mandato de deputado federal. Estava em plena vida pública, embora tivesse uma consultoria privada. Como o ministro importante deve estar acima de qualquer suspeita, e como muitos pensam que os negócios da consultoria privada podem ter se confundido com a condição pública de ex-ministro, deputado e futuro ministro (que já se antecipava no último ano de mandato na Câmara), a melhor forma de o ministro calar a boca da oposição é mostrar quem pagou tudo aquilo e para quê. Simples, claro e objetivo. Não precisa entrar em detalhes da consultoria, que isso pode ser sigiloso. Basta dizer quem e para quê. Ninguém vai se sentir prejudicado por se conhecer relações comerciais lícitas.


ABAIXO O CONHECIMENTO!

Sexta-feira, 20 de maio de 2011

Antes de invadir a Universidade de Salamanca, o general falangista Milán Astray encerrou uma discussão com o reitor Miguel de Unamuno com o grito: “Abaixo a inteligência!”. O Brasil parece hoje tomado por falangistas que têm medo de livros, de escolas, de conhecimento. Bibliotecas estão abandonadas. Escolas mal-cuidadas. Professores mal-formados. Alunos semi-analfabetos, ainda que tenham diploma de curso superior. O mérito está sendo abolido, substituído por cotas e por aprovação de ano automática. E agora o MEC referenda um livro, distribuído a quase meio milhão de alunos, que apóia o falar errado: “O livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. O governo não se importa de contrariar a Constituição que estabelece o Português como a língua oficial do Brasil. Quer abonar o patoá.

Ironicamente, o livro se chama “Por uma Vida Melhor”. Como terá vida melhor alguém que, não aprendendo a língua, não vai se comunicar direito, nem vai conseguir um bom emprego sem se expressar da forma correta? Quem vai à escola é para aprender e não para ser vítima da esquizofrenia do politicamente correto. Se a idéia é evitar o preconceito linguístico, como diz o livro, então devem começar eliminando o preconceito de que o aluno pobre é incapaz de aprender o bom português. Aliás, se o MEC quer acabar com preconceito, que comece protegendo os melhores alunos, que são isolados, estigmatizados, chamados de nerds - e são os que têm o potencial de nos trazer, enfim, algum Prêmio Nobel. Proteger a mediocridade só estimula a passividade. Nivelar a vida por baixo. Impedir o enriquecimento intelectual, que faz pensar, tirar conclusões e não votar em demagogos e mentirosos.

O professor Evanildo Bechara, mestre de todos nós que amamos o nosso País e, em consequência, amamos a língua que nos distingue, afirma que “se o professor diz que o aluno pode continuar falando nóis vai, porque isso não estaria errado, então esse é o pior tipo de pedagogia. Se um indivíduo vai à escola, é porque busca ascensão social e isso demanda da escola que lhe ensine novas formas de pensar, agir e falar.”

Aqui, a esquizofrenia da frustração pretende uma espécie de mediocrização social. “Todos somos iguais e todos somos medíocres” - parece romance de George Orwell. Vai para onde o Brasil desse jeito? A China sabe aonde vai. Há 30 anos manda multidões de jovens para os Estados Unidos, para fazerem mais estudo. Nas escolas chinesas, o ensino é rígido, é competitivo e premia o mérito. O Brasil despreza esses três meios de ter futuro. E fica cada vez pior. Agora estão terminando o fundamental sem estarem alfabetizados. Os especialistas dizem que no segundo ano já deveriam estar alfabetizados. Quando fiz o primário em grupo escolar, estávamos alfabetizados no primeiro ano. No segundo já interpretávamos leitura e já dividíamos e multiplicávamos. ninguém dava vivas à ignorância.


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