
“Eu não quero que Deus me dê nem um dia a mais de que eu não possa me orgulhar”. As palavras são de José Alencar, vice-presidente do Brasil. E ganham contornos dramáticos e comoventes pelas 364 páginas da biografia dele, escrita pela jornalista Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S.Paulo.
Amor à Vida acaba de chegar às livrarias do Brasil e é, sobretudo, a história de um homem que teima em continuar vivo, contra todas as previsões médicas, travando emocionante duelo público com uma doença feroz.
Portanto, não há como deixar de se comover ou de se identificar. Sobreviver, de um modo ou de outro, é o que estamos todos buscando, e, nas palavras de Cantanhêde, fica evidente que Alencar vem fazendo isso a despeito de históricos, exames e prognósticos médicos. A biografia de Alencar é dessas sagas que superam clichês e pieguices para inspirar nossas próprias vidas.
Estou no céu?
Das passagens mais significativas, as palavras dele já no centro cirúrgico do que a autora chama de “a grande cirurgia”, a mais arriscada e dramática até hoje, realizada no começo de 2009, em São Paulo (depois de médicos americanos se recusarem a fazê-lo por conta de seu enorme risco e do resultado altamente duvidoso).
Já meio grogue e preparado para a intervenção, ele abriu os olhos e se viu cercado de enfermeiras. “Uai. Já estou no céu? Está cheio de anjo do meu lado”, disse antes de emendar: “Quantos médicos têm aqui?”, e ouviu que eram mais de 10. “Tem algum desanimado? Se tem, pode sair, pode ir embora porque eu estou muito animado!”
Depois de 15 cirurgias e de lutar contra variados tumores desde 1997, não há mais médico na equipe de renomados profissionais que cuida de Alencar que deixe de conferir a esse tipo de atitude positiva a impressionante sobrevida do paciente.
Ainda assim, assunto do qual Cantanhêde, como repórter experiente, não foge é aquele que toca no fato de Alencar ser, além de vice presidente, um dos homens mais ricos do Brasil. Alguém com recursos menos fartos teria os mesmos resultados assombrosos? Os médicos acabam concluindo que, no Brasil de hoje, seria bastante possível. Mas, algumas páginas adiante, ficamos sabendo que apenas um dos remédios que Alencar deve tomar custa 12 mil reais por mês e concluímos que a milagrosa sobrevida do vice-presidente se deve a uma combinação de atitude vencedora com riqueza muito acima da média.
Como conheceu Lula
Ainda que a luta de Alencar contra o câncer seja o ponto alto do livro, outras curiosas histórias fazem parte dele. A trajetória humana de um dos maiores empresários do País, que só conseguiu completar o ginásio: a pobreza na infância, a vocação empresarial, a paixão por Mariza “mais bonita do que atriz de Hollywood”, a carreira política, e, em destaque, o primeiro encontro com Lula, em uma festa oferecida por Alencar para políticos e empresários brasileiros por ocasião da comemoração de seus 50 anos como empresário. Lula, como conta a autora, não queria ir, mas José Dirceu insistiu que era grande oportunidade para “circular por aquele ambiente do grande capital produtivo e sutilmente hostil”, e Lula acabou cedendo.
Também cativante é a história dos primeiros anos de vida de Alencar.
“Nós éramos muito pobres”, conta ele sobre a vida na roça mineira. “Morávamos numa casa que não tinha nem luz elétrica nem água encanada. (…) Mamãe fazia o próprio sabão. Sabe como faz sabão em casa? Não tinha dinheiro para comprar soda cáustica. Então mamãe produzia lá mesmo: pegava as cinzas do fogão, botava numa peneira muito fechada, botava água e ia pingando. O que caía lá embaixo chamava-se decoada. A decoada era a sida castiça para fazer sabão. Ali, juntava-se capado ou coisa que o valha. Era o sebo, aquilo do boi que ia para o lixo. Mas não era banha, não, porque a banha era produto de consumo. Era o que ia perder mesmo. Botava no fogo baixo até ferver e aquela gordura que saía dali era misturada com a decoada. Mamãe espalhava tudo aquilo pela mesa, coberta com um pano, esperava secar e depois cortava. Era o nosso sabão”.
Prótese peniana
E a sinceridade de Alencar, contagiante, como revela este trecho:
“Mais ou menos na mesma época, Alencar teria retirado uma hérnia. Vira e mexe aparece uma referencia lateral a ela, mas ninguém sabe explicar do que se trata. Alencar, com sua admirável e invejável sinceridade, explica: ‘Hérnia? Não tem isso, não. É que coloquei uma prótese (peniana) e, quando perguntei ao médico como ia explicar isso, ele falou: ‘diz que foi uma hérnia e pronto’”.
Sobre a amizade com Lula, conta José Genuino: “Eles são muito bons de boca, gostam de uma cachaça, de uma linguiça, de um torresmo. Se deixar passam dias e noites conversando e contando ‘causos’. O Alencar adora contar a vida dele, contar um ‘causo’”.
Fica a sensação é a de que poderíamos saber mais dessa amizade, que parece ter se estreitado de forma sólida e fraternal ao longo dos anos em que os dois formaram uma dupla, mas Lula, não se sabe a razão, não deu seu depoimento para a obra, embora a autora tivesse insistido por diversas vezes.
No final, a história da vida de José Alencar não faz mais do que inspirar, que é tudo o que esperamos de um bom livro. “É a vida. A estrada tem descida, subida, curvas, obstáculos. Eu enfrento com serenidade e firmeza”, conclui o biografado.