As redes sociais, a princípio, criadas para rever velhos amigos e trocar experiências profissionais, também é usada para localizar maus pagadores. A tática tem sido adotada por empresas de cobrança.
Pesquisa recente, feita em São Paulo, mostrou que o Facebook ajudou a achar 613 inadimplentes, de um grupo de 852 pessoas, que foram procuradas, sem sucesso, por telefone, SMS, e-mail e mala direta.
Mas encontrar devedores considerados "perdidos" usando redes sociais tem causado polêmica. É que, dependendo da forma da abordagem, a cobrança nos sites de relacionamento pode causar constrangimento ao consumidor e ferir o artigo 42, do Código de Defesa do Consumidor (CDC).
No Procon Estadual, por enquanto, não há casos de consumidores reclamando de invasão de privacidade, por parte de empresas de cobrança.
Privacidade
Só foi possível encontrar os 613 devedores por meio do "Face", porque uma empresa de recuperação de crédito cedeu sua base de dados dos maus pagadores a uma empresa de pesquisa. Este é o principal questionamento no uso das redes sociais para este fim.
O problema, segundo o procurador do Estado, Leonardo Garcia, é até que ponto empresas de cobrança podem usar a comunidade virtual.
"A privacidade da informação está em pauta, desde a criação do cadastro positivo. Neste caso, as informações são usadas para beneficiar o consumidor com juros menores. Mas nas redes sociais fica tudo muito exposto. Se a empresa usa a internet para apenas encontrar um devedor, tudo bem. Mas não pode causar constrangimentos", diz.
Apesar da pesquisa, o Facebook ainda é pouco utilizado por empresas, seja para localizar ou notificar o consumidor inadimplente. A ideia é tentadora, confessam donos de firmas de cobrança, mas eles têm receio de expor o devedor e, assim, descumprir o CDC.
Mensagem direta
Representante da Brasilcon (Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor), Garcia destacou que não é crime a empresa de cobrança acessar a página do devedor, até porque para fazer parte da rede de amigos é preciso ser aceito pelo próprio inadimplente.
No entanto, a empresa não pode ameaçar nem cobrar, pois todos amigos também vão ler a mensagem. Só pode envie mensagem direta para, pois, nesse caso, apenas os dois podem ler.
"Ainda assim, não pode ser de forma grosseira, abusiva", salientou o procurador. Mas, apesar das restrições, empresas reconhecem que, num futuro próximo, as redes sociais serão o instrumento número um de cobrança.
"Não só a nova geração como a universalização do acesso à banda larga tornam essa direção inevitável", enfatizou José Augusto Rezende Júnior, presidente da J.A. Rezende, empresa de recuperação de crédito que cedeu a base dos inadimplentes "perdidos" para a pesquisa.
Moda é monitorar fama na web
Enquanto algumas empresas usam facebook para encontrar inadimplentes, outras estão utilizando as redes sociais para monitorar sua fama nos sites de relacionamento. É que muitos consumidores passaram a reclamar de empresas em twitter e facebook. Com medo da repercussão, as empresas contrataram firmas específicas para fazer este tipo de serviço. Com isso, estão conseguindo resolver os problemas da forma mais rápido possível.
Consumidores na rede
Pesquisa - Busca: Uma empresa de pesquisa de São Paulo, a pedido de uma operadora de cobrança, fez uma pesquisa no Facebook, e encontrou 613 inadimplentes de um grupo de 852 pessoas.
Base de dados - "Perdidos": A empresa de cobrança cedeu sua base de dados para a pesquisa, fato questionado pelos órgãos de defesa do consumidor.
Devedores no país - Financiamentos: O grupo que participou do levantamento é formado por devedores de todas as regiões do Brasil, com mais de 720 dias de atraso em financiamentos de veículos, cartão de crédito, empréstimo consignado e consórcio.
Procon Estadual - Sem registro: No Espírito Santo ainda não há registro de empresas usando as redes sociais para achar maus pagadores.
Lei - Control "C": Mas se acontecer uma cobrança por meio do Facebook ou Twitter, o inadimplente deve copiar o texto e ir atrás de seus direitos, porque o cobrador expôs o devedor ao ridículo e o submeteu a constrangimento, infringindo o CDC.
Tática - Mensagem: Mesmo que a empresa de cobrança use a tática da mensagem direta para fazer a cobrança, o consumidor pode reclamar. Mas somente no caso de o texto ser abusivo.
Reclamação virtual - Fugindo do SAC: Por outro lado, as redes sociais ajudam o consumidor a reclamar e defender seus direitos. Muitas pessoas têm preferido recorrer aos sites de relacionamento, por serem mais ágeis do que os Serviços de Atendimento ao Consumidor (SAC).
Agilidade - Minutos: Para se ter uma ideia do alcance das redes sociais, teve reclamação virtual resolvida em 10 minutos. O que não acontece no SAC.
Estratégia - Marketing: Contudo, a reclamação nas mídias sociais pode também virar uma estratégia de marketing para as empresas. Isso porque quando alguém posta comentários na rede, detonando determinado produto, centenas pessoas acompanham. Quando a empresa responde, muitas leem a resposta. É por isso que a reclamação virtual pode ser uma chance para a empresa resgatar a boa imagem.
BBB virtual - Futuro: A maioria das pessoas não sabe que está sendo vigiada, o tempo todo, nas mídias sociais. Isso acaba se tornando dados para futuras estratégias das empresas.