
Com mais de 27 anos na polícia, o delegado Francisco Carlos do Bonfim Filho é enfático em afirmar que o crime organizado no Piauí não acabou. Para o delegado, o crime organizado está apenas adormecido. O delegado recebeu a reportagem do Tribuna do Piauí na Comissão do Crime Organizado, na Avenida Gil Martins, Bairro Três Andares, Zona Sul de Teresina, onde falou sobre segurança pública, polícia civil, crime organizado, Correia Lima e sua paixão pela profissão que abraçou.
Bonfim Filho diz que o ex-coronel José Viriato Correia Lima, mesmo preso em Parnaíba ainda mete medo em muita gente. “Embora muitas pessoas não queiram acreditar, nós que trabalhamos na polícia, que conhecemos o perfil do José Viriato, seu modus operandi, seus comparsas e sabendo do que eles são capazes, não serão dez anos de cadeia que vão transformar ele numa outra pessoa. A Bíblia que o Correia Lima utiliza como gesto para passar para a população que se converteu eu digo que é propaganda enganosa. Só quem acredita nisso são os pastores. Uma pessoa que tem uma mente criminosa como a dele, capaz de cometer os crimes hediondos que ele já cometeu, não para com isso de uma hora para outra”, comenta.
Bonfim diz que recentemente chegou um informe na Comissão Investigadora do Crime Organizado dando conta de que soldados Polícia Militar do Piauí que ainda “recebem” ordens do ex-coronel teriam ido à casa de um advogado na Zona Leste, invadiram a residência, tiraram todos os móveis e afirmaram para o caseiro que avisasse para o dono que quem tinha mandado desocupar a casa foi o ex-coronel, e qualquer coisa ele o procurasse na penitenciária de Parnaíba. O advogado atuou na defesa do ex-coronel e tinha recebido a casa como pagamento pelos honorários, como não mora em Teresina, contratou um caseiro para cuidar do imóvel.
Bonfim diz que a polícia soube do fato, mas até agora não pôde fazer nada, porque ninguém fez qualquer denúncia na polícia sobre a invasão do domicílio, o caseiro não foi espancado e não houve violência. Não foi feito sequer um Boletim de Ocorrência (BO).
O delegado dá como exemplo para provar que o crime organizado está apenas adormecido o fato de que algumas pessoas presas começam a ser soltas. Ele cita José Correia Braga Neto, o Zé Correia, irmão de Correia Lima, que foi solto na quarta-feira, 04, após conseguir alvará de soltura. Zé Correia passou dez anos preso no 1º Batalhão da Polícia Militar do Piauí. O policial foi condenado pelo assassinato do caseiro de Correia Lima, Zé Quelé. Bonfim lembra ainda do soldado Moreira, Tomé Xavier e outro irmão de Correia Lima que ainda estão presos, condenados, e até hoje não foram colocados para fora da Polícia Militar.
“A polícia fez seu papel, mas até agora eles não foram postos para fora da PM enquanto que existem casos que um soldado falta ao serviço uma vez e já é colocado para fora da polícia ou mesmo algum que comete pequenas faltas é expulso dos quadros da PM. Até hoje esses soldados que foram presos e condenados por cometerem crimes, continuam recebendo salário, tomando café, almoçando e jantando à custa da população. É isso que me revolta”, indigna-se Bonfim.
O delegado diz que o que mais lhe revolta é que todos esses soldados foram presos, os inquéritos concluídos, enviados para a Justiça e até agora eles não foram julgados. Na opinião do delegado, os processos contra integrantes do crime organizado deveriam ter tido um tratamento especial. Ele cita como exemplo uma visita que fez ao estado do Rio de Janeiro, e na Comarca de Nova Iguaçu, os processos são identificados por etiquetas, cada um com seu grau de importância e os mais importantes são julgados com mais celeridade.
Sobre o envolvimento de policiais civis em ações criminosas, Bonfim Filho diz que abraçar a carreira de policial é um sacerdócio. Para o delegado, o pior policial é aquele que entra na instituição, usa uma carteira do estado, usa o poder de policia, uma arma e ainda pratica o mal. Ele diz que acha uma grandeza da instituição o ato de cortar na própria carne, deixar o corporativismo de lado. “Policial bandido na polícia não é regra, é exceção”,finaliza.